Quando perguntamos “porque é que o cão faz isto”, estamos normalmente a colocar duas perguntas diferentes como se fossem uma só. Um etólogo responde em termos de função e evolução; um psicólogo comparado, em termos de mecanismo e história de aprendizagem individual. Esta ambiguidade — entre causação próxima e causação última, na distinção clássica de Ernst Mayr (1961) — está na raiz de grande parte da confusão à volta do comportamento canino, e é também o motivo pelo qual etologia e psicologia não competem: respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo fenómeno.
Etologia: instinto, período sensível e as quatro perguntas de Tinbergen
A etologia nasce como disciplina científica com Konrad Lorenz, Nikolaas Tinbergen e Karl von Frisch, distinguidos em 1973 com o Nobel da Fisiologia ou Medicina pelas suas descobertas sobre a organização do comportamento individual e social. Lorenz descreveu, nos anos 30, o fenómeno do imprinting em gansos-bravos — a fixação de um jovem animal ao primeiro estímulo em movimento que encontra num período muito específico da vida.
Foi Tinbergen (1963), num artigo hoje canónico, “On aims and methods of ethology”, que organizou o campo em torno de quatro perguntas complementares — ainda hoje a estrutura de referência da disciplina: causação (que mecanismo imediato desencadeia o comportamento), ontogenia (como se desenvolve ao longo da vida do indivíduo), função (que vantagem adaptativa proporciona) e filogenia (como evoluiu na espécie). As duas primeiras respondem a causação próxima; as duas últimas, a causação última.
Aplicado ao cão, este enquadramento explica, por exemplo, a existência de um período sensível (por vezes ainda chamado “crítico”) de socialização, documentado por Scott e Fuller (1965) no seu estudo longitudinal de 13 anos com várias raças no Jackson Laboratory: entre as 3 e as 14 semanas de vida, a exposição — ou a sua ausência — a pessoas, outros animais e estímulos ambientais tem um peso desproporcional na forma como o cão adulto reage ao mundo.
O corretivo interno da etologia: o mito do “lobo alfa”
Vale a pena um parênteses, porque ilustra bem como a própria etologia se autocorrige. O modelo do “lobo alfa” — um indivíduo que domina o grupo por confronto constante — teve origem em estudos de lobos em cativeiro, não aparentados entre si e forçados a partilhar território.
Foi o próprio autor de referência desse modelo, L. David Mech, quem o desmontou: no artigo de 1999 “Alpha status, dominance, and division of labor in wolf packs”, publicado no Canadian Journal of Zoology após 13 verões de observação direta de uma alcateia selvagem na ilha de Ellesmere, Mech conclui que uma alcateia selvagem típica é, no fundo, uma família — os pais reprodutores coordenam o grupo por divisão de tarefas, não por confrontos de dominância. A implicação para o cão é direta: qualquer método de treino justificado por analogia com uma hierarquia de “alfas” e “submissos” parte de um modelo que a própria etologia já abandonou.
Psicologia comparada: do condicionamento à cognição
Se a etologia pergunta pela função e pela evolução, a psicologia comparada aplicada ao cão pergunta pelo mecanismo de aprendizagem e pela diferença individual. As suas raízes estão no condicionamento clássico de Pavlov (1927) — um estímulo neutro (na experiência mais citada, um metrónomo, popularizado depois como “a campainha de Pavlov”) associado repetidamente ao alimento passa a provocar, por si só, a resposta fisiológica de salivação — e no condicionamento operante de Skinner, que explica a aquisição e a extinção de comportamentos em função das suas consequências (reforço positivo e negativo, punição positiva e negativa).
A síntese mais completa entre esta tradição e a etologia está hoje em obras como a de Ádám Miklósi, Dog Behaviour, Evolution, and Cognition (Oxford University Press, 1.ª ed. 2007), que reúne literatura primária sobre cognição, comunicação e evolução social do cão.
Dois exemplos concretos mostram bem esta ponte entre disciplinas:
- Vinculação: Topál, Miklósi, Csányi e Dóka (1998) adaptaram ao cão o Strange Situation Test de Ainsworth (1969), desenhado originalmente para medir vinculação entre crianças e cuidadores. Os cães dirigiram comportamentos de vinculação — procura de contacto, uso do dono como base segura — de forma comparável à criança humana. É um constructo etológico (a vinculação tem função evolutiva clara) medido com metodologia psicológica experimental.
- Viés cognitivo: Mendl e colaboradores (2010), na Current Biology, mostraram que cães com comportamento de ansiedade de separação respondem a estímulos ambíguos de forma mais “pessimista” do que cães sem esse historial — uma janela experimental sobre o estado afetivo do animal, com implicações diretas para o bem-estar em contexto de alojamento.
Aplicação profissional: avaliar aptidão vs. modificar comportamento
Na prática de juiz internacional da FCI em Mondioring e IGP (ex-IPO), e de criador de Pastor Belga Malinois de trabalho, a distinção de Tinbergen é uma ferramenta de trabalho diária. Avaliar o instinto de presa, a coragem ou a sociabilidade de um cão em prova é uma leitura de função e filogenia — até que ponto o comportamento observado corresponde ao padrão adaptativo da raça e da linha de trabalho. Construir depois um exercício de obediência preciso é uma leitura de causação e ontogenia — que história de reforço é necessária para chegar àquela resposta específica.
O mesmo raciocínio aplica-se ao alojamento: perceber se um cão hóspede está apenas a manifestar um padrão normal de resposta a mudança de território (etologia) ou se desenvolveu, por historial individual, uma resposta de ansiedade de separação que beneficiaria de intervenção (psicologia aplicada, com o viés cognitivo de Mendl et al. como possível indicador) exige as duas leituras em simultâneo.
Conclusão
Nenhuma das duas disciplinas substitui a outra, porque respondem a perguntas diferentes sobre o mesmo comportamento. A etologia dá o mapa da espécie; a psicologia dá as ferramentas para o indivíduo. Um trabalho sério com cães — em prova, em treino ou em alojamento — precisa das duas respostas, não de uma escolha entre elas.
Referências
Mayr, E. (1961). Cause and effect in biology. Science, 134(3489), 1501–1506.
Tinbergen, N. (1963). On aims and methods of ethology. Zeitschrift für Tierpsychologie, 20, 410–433.
Scott, J.P., & Fuller, J.L. (1965). Genetics and the Social Behavior of the Dog. University of Chicago Press.
Mech, L.D. (1999). Alpha status, dominance, and division of labor in wolf packs. Canadian Journal of Zoology, 77(8), 1196–1203.
Pavlov, I.P. (1927). Conditioned Reflexes: An Investigation of the Physiological Activity of the Cerebral Cortex (trad. G.V. Anrep). Oxford University Press.
Miklósi, Á. (2007; 2.ª ed. 2016). Dog Behaviour, Evolution, and Cognition. Oxford University Press.
Topál, J., Miklósi, Á., Csányi, V., & Dóka, A. (1998). Attachment behavior in dogs (Canis familiaris): A new application of Ainsworth’s (1969) Strange Situation Test. Journal of Comparative Psychology, 112(3), 219–229.
Mendl, M., Brooks, J., Basse, C., Burman, O., Paul, E., Blackwell, E., & Casey, R. (2010). Dogs showing separation-related behaviour exhibit a “pessimistic” cognitive bias. Current Biology, 20(19), R839–R840.
Vieira de Castro, A.C., Fuchs, D., Morello, G.M., Pastur, S., de Sousa, L., & Olsson, I.A.S. (2020). Does training method matter? Evidence for the negative impact of aversive-based methods on companion dog welfare. PLOS ONE, 15(12), e0225023.
Paolo Picariello — Adestrador profissional e juiz internacional FCI (IGP/Mondioring), 39 anos de experiência, 28 dos quais em Portugal. Criador de Pastor Belga Malinois. Escola e Hotel Canino em Gandra, Paredes.



