É a pergunta que quase toda a gente me faz, normalmente ao telefone, normalmente naquele tom que tenta não soar a acusação: «Mas posso vir visitá-lo?»
A resposta é não. E percebo perfeitamente o que lhe passa pela cabeça quando a ouve, porque também me passa a mim quando deixo um cão com alguém. Quem não deixa entrar, esconde alguma coisa.
Então vou explicar-lhe isto como deve ser, e no fim digo-lhe uma coisa que nenhum colega lhe vai dizer: qual é o verdadeiro sinal de alarme que deve recear.
1. O problema começa nos seus sapatos
O parvovírus canino não é um vírus qualquer. Sobrevive no ambiente durante meses — em condições favoráveis, mais de um ano — e resiste a boa parte dos desinfetantes de supermercado. Para o eliminar é preciso hipoclorito ou peroxomonossulfato de potássio, com tempos de contacto respeitados e superfícies laváveis.
Não é preciso um cão doente para o trazer cá para dentro. Basta uma sola.
Você passou pelo parque; pelo parque passou, há três semanas, um cachorro sem a vacinação completa; você entra no meu box e pousa o pé. Chama-se transmissão por fómites: sapatos, mãos, mangas, trelas, o telemóvel que teve na mão enquanto fazia festas ao cão. Vale para a giardíase, para o coronavírus entérico, e vale para o complexo respiratório infecioso canino — aquilo a que toda a gente chama tosse do canil e que não é uma doença só, mas um grupo: Bordetella bronchiseptica, parainfluenza, adenovírus tipo 2, micoplasmas e, em alguns países, a gripe canina. Aerossóis e contacto. E aqui está o ponto que dói: um cão infetado elimina o agente antes de começar a tossir. A vacina reduz a gravidade, não anula o contágio.
Um hospital não o deixa passear pelos cuidados intensivos com os sapatos da rua. Um criador sério não o deixa entrar na maternidade. Não é antipatia. É que o movimento de pessoas é a variável que se consegue controlar — e por isso controla-se.
Aqui dentro há cachorros a meio do plano vacinal, cães idosos, cães sob tratamento. Nenhum deles tem defesas para um erro de gestão meu.
2. O barulho que não ouve porque só cá está cinco minutos
Nas instalações para cães, os níveis sonoros medidos ultrapassam com regularidade os 85–100 decibéis, com picos documentados acima dos 110. É barulho de oficina, produzido por animais com uma audição bastante mais fina do que a sua.
Uma pessoa que atravessa o corredor liga um cão. Esse cão liga outros quatro. Em trinta segundos ladram todos — e não é sociabilidade: é excitação que se propaga, com frustração de barreira. O cão vê, não alcança, carrega-se. Depois são precisos vinte bons minutos até aquilo assentar outra vez.
Você fica um quarto de hora. A conta pagam-na os outros durante o resto da tarde. E paga-a também o seu.
3. As primeiras quarenta e oito horas, e porque não se interrompem
As medições de cortisol em cães acabados de entrar num canil ou hotel descrevem um padrão bastante constante: valores altos nas primeiras vinte e quatro a setenta e duas horas, depois uma descida progressiva à medida que o ambiente se torna previsível.
Previsível é a palavra-chave. Horários fixos, as mesmas vozes, a mesma sequência — come, sai, trabalha, dorme.
Não é a novidade em si que faz o estrago. É a imprevisibilidade, e é a falta de controlo sobre o ambiente. Nisto, a literatura sobre stress crónico no cão está de acordo há trinta anos.
Uma visita a meio da estadia põe o contador a zero. O cão tinha construído uma rotina e essa rotina parte-se — com a pessoa mais importante da vida dele a aparecer e a desaparecer outra vez.
Esse pico, no entanto, pode baixar — e baixa antes de a estadia começar. Um cão que chega a um sítio que já viu, com pessoas que já cheirou, no primeiro dia não tem nada para aprender. Volto a isto no fim, porque é assim que eu trabalho.
4. O reencontro a meio
Neste ponto sou honesto consigo: é o raciocínio mais sólido do ponto de vista clínico e o menos demonstrado experimentalmente. Digo-lho na mesma, porque é o que vejo todos os dias.
O cão é uma espécie que forma com o humano uma vinculação comparável à que se descreve na criança pequena. E na vinculação, a separação e o regresso pesam muito.
Você entra. Ele vê-o, ouve-o, cheira-o. A estadia que ele já tinha aceitado volta a ser uma separação em curso.
Depois você vai-se embora.
Ele não tem maneira de saber que volta na quinta-feira. Não lho expliquei eu e você também não lho pode explicar. O que ele percebeu foi que chegou e foi-se embora mais uma vez. Os cães com predisposição para ansiedade de separação, depois de uma visita a meio, eu reconheço-os: vocalizam mais, comem menos, voltam a vigiar a porta.
O cão que o espera sem se desesperar é aquele a quem foi dada uma situação clara e estável. Não um a quem mostrámos a saída entreaberta.
5. Portões, e cães que não são o seu
Parte prática, menos nobre e igualmente verdadeira.
Cada pessoa que atravessa as instalações é uma porta que abre e fecha — e a porta mal fechada é a forma mais comum de um cão fugir. Quem trabalha aqui tem automatismos que você não tem.
Além disso: alguns dos cães que alojo trabalham em proteção civil ou em desportos de utilidade, outros estão em gestão comportamental precisa. Um estranho que se aproxima de uma vedação pode desencadear agressividade redirecionada sobre o cão do lado. A dentada não é você que a leva. É outro cão.
E ainda: nem todos os meus clientes querem que desconhecidos fotografem o cão deles. Se não o deixo entrar a si, também não deixo entrar quem gostaria de ver o seu.
O que a investigação NÃO diz — e que eu não lhe vou contar
Era cómodo escrever que os estranhos stressam os cães. Não é verdade, e não lho digo.
Os estudos apontam ao contrário: o contacto humano estruturado, com pessoas competentes, baixa o cortisol em cães alojados. O contacto humano é remédio, não veneno.
O problema não é você enquanto pessoa. É o trânsito não controlado, o horário ao calhas, a interrupção da rotina, a sola que vem da rua. É uma questão de protocolo, não de desconfiança.
E é exatamente por isso que eu não fecho a porta: ponho-a num horário.
Como funciona aqui
A visita faz-se antes, e faz-se com o cão.
Não é uma inspeção. É a primeira vez que o seu cão vem cá.
Marcamos uma hora. Chega, vamos para o campo de treino, e ali o cão é solto. Corre, cheira, contacta com toda a equipa — as mesmas pessoas que depois vão tomar conta dele, e não um funcionário na receção. Entretanto sentamo-nos, bebe-se um café e faz-me todas as perguntas que tiver, com calma, sem um cão a ladrar atrás de uma rede a dois metros.
Depois o cão vai para casa consigo.
É este o ponto de todo o artigo. No dia em que volta para ficar alojado, não chega a um sítio desconhecido cheio de desconhecidos. Chega a onde já esteve, a gente que já cheirou, a um campo onde já correu. O pico das primeiras quarenta e oito horas arranca mais abaixo — e arranca mais abaixo porque a parte difícil já a fizemos juntos, num dia em que você não desapareceu.
Os boxes vê-os no site. Fotografias e vídeos: onde dormem, como são feitos, como estão. São os boxes verdadeiros, e são aqueles onde o seu cão vai ficar.
Um vídeo por WhatsApp de dois em dois dias. Durante a estadia mando-lhe o seu cão em vídeo, de dois em dois dias. Não é uma imagem de arquivo: é ele, naquele dia, a fazer o que está a fazer.
O telefone fica ligado. Se quiser saber quanto comeu e como dormiu, ligue. Se houver um problema, ligo-lhe eu antes de mo perguntar.
O verdadeiro sinal de alarme
Agora a parte que me convém pouco e que lhe digo à mesma.
Se um alojamento não o deixa entrar durante a estadia, pelas razões que acabou de ler, está tudo bem.
Se um alojamento não lhe mostra nada e não lhe apresenta ninguém — não o deixa vir antes com o cão, não lhe põe à frente as pessoas que vão tomar conta dele, não mostra os boxes nem sequer em fotografia, arranja uma desculpa sempre que pede uma marcação, e durante a estadia desaparece — isso não é biossegurança. É um sítio que não quer ser visto, e o seu cão não deve lá ir.
A diferença entre as duas coisas está numa única pergunta, e pode levá-la consigo para onde quiser:
«Posso ir aí antes com o meu cão, conhecê-lo a si e a quem vai ficar com ele?»
Se a resposta for sim, com uma data marcada, está diante de alguém que trabalha.
Aqui a resposta é sim. Telefone e marcamos.
Escola e Hotel Canino Paolo Picariello — Gandra, Paredes
Referências
As afirmações deste artigo apoiam-se na literatura veterinária e comportamental sobre: sobrevivência ambiental e desinfeção do parvovírus canino; transmissão por aerossóis e fómites do complexo respiratório infecioso canino (CIRDC); níveis sonoros medidos em instalações de alojamento canino; evolução do cortisol nos primeiros dias de alojamento; efeitos do stress crónico e da falta de previsibilidade e de controlo no cão; vinculação cão-humano.




